quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

POLICIÁRIO DE 28 DE JANEIRO

 

TORNEIO DO CENTENÁRIO DO SETE DE ESPADAS

Estamos a um curto passo do regresso à competição, o que vai acontecer já na próxima semana!

Os detectives nunca se sentem confortáveis sem a adrenalina dos desafios por resolver e esta ano ainda com o aliciante de homenagear o Sete de Espadas no centenário do seu nascimento.

Já na próxima semana estará aqui o primeiro desafio para resolver, do Torneio do Centenário do Sete de Espadas, um problema de características tradicionais, ou seja, a exigir um relatório com as deduções efectuadas e as conclusões retiradas.

E como aperitivo e aquecimento das “células cinzentas”, vamos publicar um desafio, passado algures, no local onde se reúnem policiaristas já desaparecidos do nosso convívio e em que o Sete, lá como sempre fez aqui, não falha uma presença!

 

QUATRO AMIGOS

 

Os quatro amigos estavam reunidos à mesa, algures num local estranho, que não conseguimos identificar. Com maior pormenor, a neblina começou a dissipar-se e as feições de cada um mostraram-se bem nítidas, permitindo o seu reconhecimento:

Um era o inevitável Sete de Espadas, com a sua cabeleira rala, muito branca, olhos vivos, sorriso franco; à sua frente, estava o Dic Roland, detective de vastos recursos, que chegou a ser chefe da polícia na Índia e que percorria o país em todos os eventos policiários, como sempre fizera o Sete de Espadas; à direita, sentava-se o KO, um professor de grande mérito que um dia descobriu que era exímio decifrador de enigmas policiais e ganhou enorme fama no meio; à esquerda sentava-se o restante amigo, o Rip Kirby, outro brilhante detective que seguia todas as movimentações policiais, escrevendo e resolvendo enigmas, com um gosto especial pelas classificações...

Aos quatro podiam chamar-se os “três mosqueteiros”, que como é sabido eram quatro, ou como alguém sugeriu, o “bando dos quatro”!

Na verdade, cada qual à sua maneira, eram mestres venerados e ainda hoje muito amados e respeitados no mundo do Policiário e que se reuniam no primeiro dia do mês de Julho para comemorar mais um aniversário do Policiário no PÚBLICO, agora que estavam impedidos de o fazer pessoalmente. O convite não era só para eles, podiam comparecer todos os confrades que devido à passagem para este novo lado, quisessem confraternizar e certamente que ainda iam aparecer mais, mas a esta hora, eram só aqueles quatro.

No do ano anterior, foram dezenas os presentes e ali, ao contrário deste lado, ninguém falta! São solidários e firmes nas suas convicções e têm a certeza que, ano após ano, mais irão chegando, porque isso é uma inevitabilidade.

De história em história, chegaram ao momento em que o Rip Kirby, entre sorrisos, lançou a “farpa” aos restantes, lembrando o acontecido na reunião do ano anterior, quando estes mesmos quatro chegaram ao final do encontro e foram fazer as contas para pagarem a despesa…

– Lembram-se em nome de quem foi pedida a factura? Lembram-se?

– Lembro-me que o número do contribuinte correspondia ao nome, letra a letra, número a número! – recordou o Sete de Espadas.

– Ó Rip Kirby, está a lançar confusão! – referiu Dic Roland com sorriso malandro.

– Pois é verdade e agora acrescento eu, o número foi o 143792651. – aí estava o KO a pôr em jogo os seus dotes matemáticos.

Naquele fim de tarde, soaram gargalhadas que ecoaram e se prolongaram por muito tempo, numa demonstração de que a camaradagem e amizade são mesmo eternas. No ar ficou a pergunta para ser devidamente justificada:

De quem era o número de contribuinte que ficou na factura?

 

SOLUÇÃO:

Como é referido no texto, o número do contribuinte é relacionado com o nome com que cada um dos confrades envolvidos é conhecido. Os confrades são portugueses e por isso teremos de considerar que é de um número de contribuinte nacional, individual, que falamos e por isso composto por nove algarismos e começado por 1 ou 2.

Olhando para os nomes/pseudónimos, verificamos que só o confrade DIC ROLAND tem precisamente 9 letras e apenas ele tem a mesma letra no início e no fim, pelo que o seu número de contribuinte teria de começar e encerrar com o mesmo algarismo, pelo que encaixa perfeitamente no número, perfeitamente fictício, que consta do problema.

TRÊS ARMAS DISPARARAM…

Solução de: Sete de Espadas

 


Sendo fraco desenhador, só vos posso oferecer o seguinte esquema, que no entanto tem o essencial.

Sabendo que todas as armas dispararam e que todos os carros mostram vestígios de balas, vamos em primeiro lugar, dispô-los, tal como se deveriam encontrar, no momento do crime

Assim, respondemos à vossa pergunta.

 

Posto isto, tracemos as trajectórias.

 

- Já estão!

- E agora, expliquemos a intenção de «cada um dos possíveis criminosos».

1.º - Rouhen – recebeu um telefonema anónimo dizendo-lhe que a «sua dama» saía da «Taverna Negra», com Phillip, a caminho de Bordeaux. Louco de ciúmes – desprezando os bons avisos que já por mais de uma vez lhe tinham enviado, mostrando as intenções daquela «bela espia» - ruma para a «Taverna Negra», e arma a cena da curva – sabendo de antemão que Phillip, sempre solícito, sairia do seu lugar para prestar auxílio. O momento fora bem escolhido para se desfazer dele... Com a espera, o fresco da noite e a trovoada, influíram no seu espírito. A vontade amoleceu e um outro sentimento tomou vulto… e ele ficou, sim, mas com um objectivo bem diferente… De facto não havia dúvida. Agora, friamente, reconheceu o interesse de Divonne, acerca dos seus planos – como eram, como não eram, como tinham decorrido as experiências, e por brincadeira se eles estavam no cofre do seu escritório… Como fora louco em acreditar que era amor, aquele sentimento…

 

E quando o tiro partiu, destinava-se à loira do Embaixador…

2.º - O Embaixador; - por sua vez, sabendo do encontro da sua mulher com o romancista, resolveu segui-los, para «saber certas coisas…» Quase ao chegar à curva, o carro da frente parou. Ele, que trazia os faróis apagados, aproximou-se… e sem o esperar, deparou-se-lhe uma oportunidade única. Um tiro, e depois ver-se-ia…

- Errou o coração, passando centímetros à esquerda, a raspar no braço e enfiando a bala no banco de trás do carro de Rouhen – a inclinação da perfuração e do impacto, só pode ter sido a bala da sua arma.

- Julgou ouvir mais tiros e resolveu-se a acender os faróis do seu carro… Phillip estava estendido de bruços, mas o carro da frente fugia – estava salva a honra…

 

3.º - Divonne: - Vamos cá perceber a mentalidade das mulheres! – Já desesperada com aquele flirt – e que tudo arriscava e nada ganhava – resolve ficar com o tempo livre para se dedicar a Rouhen e aos seus planos… Por outro lado começava a ter medo do escritor, que tinha descoberto «muitas coisas» com o seu espírito observador…

Debruça-se na porta, cujo vidro desceu e, friamente, ao ruído da tempestade, dispara sobre ele, matando-o à traição. Provocando esta morte, salva-se… Porque foi também nesse momento que Rouhen disparou a sua arma, cuja bala penetrou pelo pára-brisas a 38 cm da porta e saiu pelo espaço onde devia estar o vidro que foi baixado – e a raspar a loura cabeleira de Divonne…

Quanto aos outros furos no pára-brisas dos carros de Rouhen e do embaixador, está provado que estes não se afligiam com isso – o essencial, era disparar no momento oportuno…  

 



quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

POLICIÁRIO DE 21 DE JANEIRO

 


TRÊS ARMAS DISPARARAM…

Autor: Sete de Espadas

 

Dois vultos recostavam-se no alpendre da característica «TAVERNA NEGRA», agora fortemente iluminado. Ela, esplêndida de beleza e juventude, cabelos louros soltos ao vento, sorria maliciosamente. Ele, de porte correcto, olhava-a num misto de carinho e admiração.

Diziam as más línguas, que Divonne, a linda esposa do Embaixador da Sinésia, mantinha um romance de amor com o jovem escritor Phillip Carr – cujos romances eram disputados por multidões.

Para lá do alpendre, na fita negra da estrada, fortemente batida pelo vento e pelos aguaceiros daquela extemporânea trovoada dos fins de Agosto, esperava-os o potente e bem delineado «torpedo» do escritor.

 

Minutos antes, lançado como um bólide pela estrada que sai de Bordeaux  e passa junto à «TAVERNA NEGRA», indiferente à intempérie, seguia um potente carro negro e nele, de sobrecenho carregado, maxilas cerradas e mãos enclavinhadas no volante, o conhecido e distinto capitão-tenente Gilbert Rouhen, a quem o país devia o estranho invento do «submarino aquático-terrestre…». E Gilbert, pensava naquele estranho telefonema… E diziam também as más línguas, que Gilbert, odiava, com um ódio de morte, o romancista Phillip Carr… As altas esferas, por sua vez, temiam o evidente contacto que existia entre Rouhen e essa sereia estonteante e perturbadora, que era a esposa do Embaixador estrangeiro…

 

Quando a noite já há muito tinha caído e com ela a enervante tempestade de Verão, um carro escuro seguia a pouca velocidade, pelo desvio da estrada que a poucas centenas de metros cruza com a estrada de Bordeaux, para além da «TAVERNA NEGRA»… Ao volante desse carro, preocupado com estranhos pensamentos, o Embaixador de uma potência estrangeira – que é, às vezes, um espião autorizado…

 

A poucos quilómetros da «TAVERNA NEGRA» e a caminho de Bordeaux, numa curva caprichosa da estrada, Phillip nota com assombro que à sua frente está parado um carro, ligeiramente atravessado na estrada, a meio da curva, e com os farolins apagados. Solícito, Phillip pára o seu carro, sai e avança pela estrada para prestar auxílio…

De repente, numa sucessão estranha e terrível, os relâmpagos aliam-se a fortes trovões; os raios descem para a terra em zigue-zagues estonteantes, como se tudo aquilo estivesse possuído de terrível magia e fosse uma horripilante visão do inferno… 

Depois silêncio… um silêncio que fazia calafrios, no intervalo duma tempestade de verão – presságio de morte, cortado violentamente pelo escape aberto dum carro que se afasta a toda a velocidade, a caminho de Bordeaux, farolins apagados…            

Na fita negra da estrada – agora iluminada pelos faróis de dois carros… - estendido de bruços, o corpo do romancista Phillip Carr…

 

À volta deste complicado caso, todos os «repórteres do crime» especularam aos seus jornais, com títulos a toda a largura das páginas.

Um dizia: «Uma bala perdida no interior dum carro?», referindo-se ao carro de Phillip, que no lado direito do pára-brisas tinha um furo de bala, a 38cm da porta, cujo vidro estava descido. Por mais que se procurasse no interior do carro, não foram encontrados vestígios de penetração ou impacto.

Um outro, em três edições sucessivas, dizia: «Três armas, cujas linhas de fogo interceptavam o mesmo alvo…»; «Fogo cruzado… numa curva!»; «Três conhecidas personagens, fazem fogo «sincronizado» com a tempestade…!» Transcrevia as declarações de todos eles, onde cada um afirmava que disparara a sua arma, nada mais acrescentando quanto à direcção do tiro.

Um terceiro, talvez humorista, dizia: «Um carro com dois orifícios feitos por balas… mas só uma aparece». Este repórter, seguindo a pista do carro fugitivo, veio a fornecer valiosos elementos para o processo, porquanto, foi ele que descobriu o carro de Rouhen e verificou um furo de bala no vidro da porta do lado esquerdo, junto ao volante e no banco de trás, a penetração de uma bala, junto ao suporte do braço do lado esquerdo, a qual se foi alojar do lado oposto, junto à extremidade do outro suporte. 

O quarto, fazia a seguinte pergunta: «De onde partiu o tiro que vitimou Phillip Carr?» Depois espraiava-se em comentários acompanhados por um grande «croquis» de curva, com três carros, o corpo do romancista e as possíveis trajectórias das balas – uma das quais também tinha atravessado o pára-brisas do carro do Embaixador – assegurando com toda a convicção que sabia, como e para quem tinham atirado cada um dos suspeitos – deixando antever nas entrelinhas, a posição da arma assassina. 

 

Do relatório de um perito, constava o seguinte:

- A vítima foi atingida por duas balas, uma das quais provocou morte imediata, atravessando-lhe o cérebro e a outra raspou transversalmente o braço esquerdo, passando entre este e o corpo a 5cm acima do cotovelo, fazendo dois furos no casaco e um esgaçamento no tecido da camisa.

 

Por mim, resta-me dizer-lhes meus caros Colegas, que o nosso conhecido «detective particular» Alexis Smith, de passagem por França, escrevia numa das suas cartas: - «Com os dados que te envio – eu juro que os transcrevi todos – poderás fazer uma solução absolutamente correcta e responderes com segurança às seguintes perguntas» - que eu também transcrevo na íntegra:

 

1.ª – RECONSTITUE A CENA DO CRIME.

2.ª – INDICA-ME A TRAJECTÓRIA DAS BALAS E QUAL O OBJECTIVO DE CADA UM DOS QUE DISPAROU.

3.ª – FINALMENTE, INDICA-ME O CRIMINOSO.

(Solução na próxima semana)


1948 - SETE DE ESPADAS NA REVISTA “ALTURA”

 



Em Setembro de 1948, publicava-se no Porto mais um número da revista ALTURA, que falava de um “Concurso do Problema Policial”, nestes termos:

“Da autoria do concorrente SETE DE ESPADAS, publicamos a seguir o 3.º Problema deste Concurso. Dada a complexidade dos “pontos de vista” dos nossos prezados detectives concorrentes, dada a “pormenorização” de detalhes que muitas soluções apresentam, algumas das quais, diga-se com justiça, merecem atenção especial pela maneira como são expostas, vemo-nos forçados a modificar um pouco o critério de classificação – para não cometer injustiças, dando o mesmo valor a uma dedução excepcional que se dá a uma solução correcta, ou não dando nenhum a uma solução incompleta, mas inteligente na parte resolvida. Assim, achamos melhor passar a guiar-nos por um critério mais livre, que, embora partindo do valor 1 ponto para a solução correcta, seja suficientemente “elástica” para dar ½ ponto aos que satisfaçam em parte e 1 ½  até 2 aos que ultrapassem a craveira média.”

 


A explicação para esta mudança vem depois, num quadro dos concorrentes classificados na solução de outro problema, em que aparecem com 2 pontos, por conseguinte com uma solução excepcional, apenas cinco detectives: SETE DE ESPADAS – Agualva; Raon – Seia; K120 – Oliveira do Douro; Francisco Elvas Duarte – Lisboa e Repórter Mistério – Évora.

 


Para além de produtor de problemas policiais de mérito reconhecido, como fica bem vincado no problema de sua autoria que hoje publicamos e que saíu neste número da ALTURA, o SETE DE ESPADAS era, já nesse tempo, um magnífico decifrador.




POLICIÁRIO DE 14 DE JANEIRO

 


SETE DE ESPADAS SECCIONISTA DESDE 1947

 


Em 1947 o Sete de Espadas iniciou uma longa carreira de seccionista policiário, verdadeiramente a sua melhor faceta, apesar de ser um excelente produtor, como vimos na semana passada e um bom solucionista.

Foi no Jornal de Sintra de 12 de Janeiro, chamava-se “Mistério e Aventura” e assumia-se como “secção policial orientada por Sete de Espadas”.

 O seu primeiro texto, de apresentação, dizia claramente ao que vinha:

“Leitores e caros colegas:

O nosso meio é pequeno e refractário a empreendimentos desta natureza. Estou certo que não faltará quem se erga da sua cátedra para nos atirar com a já tão conhecida e velha frase: Literatura de cordel…

Estes catedráticos esquecem-se, todavia, que a literatura de emoção e resolução de problemas policiais são dois dos grandes recreios do espírito. Estadistas de todo o Mundo, afadigados pelo vertiginoso atropelo dos acontecimentos internacionais, buscam um pouco de tranquilidade no exercício cerebral que lhes oferece a leitura dos grandes romances policiais e a resolução dos grandes problemas. Médicos, advogados, engenheiros, senhoras da melhor sociedade, estudantes, cientistas e muitas outras personagens de categoria social, não se envergonham de confessar a sua simpatia e o seu entusiasmo pela boa literatura de mistério e aventura.

Quando fui ate ao nosso director para lhe levar a ideia desta secção, confesso que fui a medo, mas encontrei nele um Amigo, que desde logo aceitou e acarinhou esta resolução, dizendo-nos:

— De vez enquanto, sair fora do sistema rotineiro, também sabe bem…

O facto de nos apresentarem como orientadores desta secção não significa um maior merecimento, simplesmente — era preciso alguém fazê-lo!...

Confiamos, pois, na benevolência dos nossos leitores e na amizade dos meus camaradas.

Tentaremos agradar e cá os esperamos neste cantinho — que é de todos.

Sete de Espadas”

 

Mas antes, em 1946, uma publicação brasileira, “Policial em Revista”, trazia à estampa um trabalho de um leitor português, assim apresentado pelo redactor:

 

 



“Veio-nos de Portugal, há algum tempo, uma colaboração de Manuel José Lattas, residente em Agualva-Cacém. Se tem boa memória devem lembrar daquele bem feito trabalho intitulado “Chesterton ou Wallace?”, que deu início em nossas colunas a uma polémica do nosso colaborador A.B.. Hoje inserimos novo trabalho do Amigo Português.”

 


VANTAGENS DA LITERATURA DE FICÇÃO


 Manuel José Lattas


Procurando bons autores, cujas traduções são bem cuidadas, eu posso encontrar entre as suas personagens todos tipos do dia a dia da vida, verdadeiramente retratados, absolutamente reais e ligados por aquele fio que assenta em bases de pura dedução lógica e me encaminham para a resolução final de um problema que me atai e seduz.


Lendo-os eu encarno um a um, todas as suas personagens e posso sentir amor, paixão, desilusão ódio, ciúme cinismo abnegação, justiça e toda a gama de sentimentos que nós mortais temos cá dentro, calcados bem no fundo do nosso íntimo, mais ou menos em estado latente.


Além do magnífico e salutar exercício cerebral, eu vou encontrar sempre nas páginas da literatura policial, uma figura que me domina e que me prende, quer esteja incarnada num inspector de polícia, num advogado ou num detective particular, mas que é, acima de tudo, um magnífico paladino da justiça e da moral, cumpridor da lei, que a lei é muitas vezes sofisma e um lutador enérgico contra o Universo cheio de mentiras idealista e onde o mal impera.
Confesso que leio livros policiais e isso não me assusta nem me diminui. A crescente expansão do romance policial trouxe as suas obrigações e deveres; um vastíssimo público, composto de homens das leis e de ciência, de médicos, de engenheiros e de toda a espécie de especialistas não podia deixar de ser observante e exigente; e para satisfazer este Argos de olhos inexoráveis tornou-se necessário um extremo cuidado na construção e apresentação da história. Um erro ou deslize podia deitar abaixo ou invalidar a solução. Cada nova conquista da ciência criou responsabilidades novas. A história policial manobra hoje todos os lados da ciência, da arte e da lei.
E por tudo isto e pelo muito que fica por dizer, eu não tenho medo de me confessar um defensor da literatura policial, que já não faz encolher desdenhosamente os ombros senão a uma meia dúzia de senhores muito sérios e superiores a estas coisas, tudo o que seja realmente vivo e do nosso tempo.


Entre os mestres do género, sem margem para discussão, está colocada a criadora da figura extraordinária do detective amador Sir Edward Palliser morador no nº 9 de Queen Anne’s Close, um beco sem saída — Agatha Christie!


Prefiro, porém, Oppenheim!


Mais romancista! Os seus livros são sempre histórias bem delineadas e bem dosadas. Ele não tem necessidade de forçar; não procura as histórias de rabo torcido e também não tem necessidade de puxar muitos cordelinhos para a movimentação das suas personagens. Ali tudo é natural e lógico. Nada de aventuras rocambolescas, nem plataformas especiais.


Simples! Humano! Leal!

 

 

LÚCIFER INTERVEIO NA HISTÓRIA

 

 Como prometido na passada semana, aqui fica a solução dada pelo Sete de Espadas ao seu problema, com que se sagrou campeão nacional, em 1958:

 

a) O assassino foi Flamínio.

b) Lerroux não podia ser: tão nervoso e desajeitado nos gestos (tombara uma jarra ao narrar o seu caso passional) não podia ter praticado um crime que não deixou rasto.

c) Bernard também não: a ponta do charuto, fora trincada, e o capitalista havia 4 dias que extraíra os dentes incisivos. Ilibado.

Logo, foi Flamínio. Como?... O «Mefistófoles» ao zangar-se com Bernard e, dois dias após, com o banqueiro, quis, de um tiro, matar dois coelhos. De índole cruel, inteligente e terrivelmente plácido, recorrendo às suas habilidades de faquir, fácil lhe foi furtar um dos famosos charutos do capitalista; depois mercê dum plano lucidamente elaborado, assassinou rancorosamente o banqueiro, não deixando o mínimo vestígio – a não ser o “Donnia”, que, mais tarde ou mais cedo, após laboriosas pesquisas, havia de meter o Bernard numa prisão. Tudo parecia infalível.

Desgraçadamente, o «italiano» ignorava – a sua inteligência não podia adverti-lo disso… – o percalço dentário que 4 dias antes sucedera ao capitalista.

Lúcifer interviera na história…

Estas são as provas essenciais. Mas há pormenores secundários facilmente perceptíveis. Por exemplo Lerroux havia 2 anos que não entrava em casa de Bernard; Flamínio apenas 8 dias – por conseguinte, só este tinha possibilidade de furtar o famoso «Donnia». Lerroux era o que mais odiava o banqueiro e perdia a serenidade ao vê-lo; e o seu rancor a Bernard, datando de 2 anos, era labareda infernal!

Ora, um homem assim violento, que em tão longo espaço de tempo não buscou oportunidade para revindicta – é porque não tem feitio para assassino…




 

POLICIÁRIO DE 7 DE JANEIRO

 


SETE DE ESPADAS

(1921 – 2008)

 

“José Manuel da Piedade Lattas, natural da Chamusca (Ribatejo), adepto desde a primeira hora da problemística policiária. Bom produtor, decifrador, notabilizou-se essencialmente como seccionista a quem o policiário muito deve. Editor sem sorte.”.

Assim foi apresentado o Sete de Espadas, em traços muito gerais, pelo “mestre” M. Constantino, produtor e ensaísta, na sua obra de maior folego “O Grande Livro da Problemística Policiária”, uma edição da Associação Policiária Portuguesa.

Esta definição, no entanto, não revela a verdadeira dimensão do Sete de Espadas, como principal divulgador da prática policiária.

Durante todo este ano de 2021, comemorando o primeiro centenário do seu nascimento, iremos prestando preito a este enorme vulto que marcou várias gerações de amantes do policial, nas suas diversas dimensões.

Vamos dar, novamente, a palavra ao “mestre” Constantino, que escreveu, pouco antes do seu próprio falecimento, no seu blogue “Policiário de Bolso”:

 

SETE DE ESPADAS (1921-2008)

 

1 de Fevereiro de 1921, data de nascimento de Sete de Espadas ou Tharuga, pseudónimos usados respectivamente para o policiário e para o charadismo de Manuel José Lattas, natural da Chamusca, Ribatejo.

 

Iniciou-se no policiário no princípio da década de 40, na secção dirigida por Repórter Mistério (Gentil Marques). Foi amor à primeira vista, amor para ficar e se desenvolver. Não só abraçou a modalidade de solucionista como a de Produção. Nesta última modalidade é de relevar, a par de outros, o título de Campeão Nacional, no II Torneio Nacional de Problemística Policiaria, disputado em 1958, com Lúcifer Interveio na História. Com vocação especial para o relacionamento com a juventude, vê, com satisfação, os mais jovens de ontem tomarem-se os Homens de hoje! Pode orgulhar-se de, até hoje, ser o homem que mais Secções Policiárias dirigiu e mais convívios entre policiaristas organizou, desde as Tertúlias dos cafés às visitas a vários locais do país, em plena e franca confraternização.


Dirigiu a primeira Secção no Jornal de Sintra (1947), com o título, predilecto, de Mistério e Aventura; em 1948, aparece no Camarada, com nova Secção; em 1953, são as Secções do Guião, Em fim de Livro... na Colecção Xis, a da Lente (propósito editorial próprio!); em 1954, no Cavaleiro Andante, com a Página Dezassete e o pseudónimo de Misterioso C. A.; em 1956, no Jornal do Sporting. Uma pausa para ganhar fôlego, surgindo, em 1975, na revista Crime (editada pelo Inspector Varatojo), no Mundo de Aventuras Especial, na Secção Mistério Policiário do Mundo de Aventuras (de 1975 a 1986), no Jornal O Crime (1989 a 1994) — e no mesmo com a Secção Édipo e a Esfinge, de 1995 até ao falecimento em 9 de Dezembro de 2008. Dias antes, já muito doente, ainda prometia um torneio policial para aquela secção a iniciar em 2009.


Lutador incansável, não esquecemos que criou e manteve com muita dedicação, durante 32 números, debaixo de canseiras e dificuldades monetárias que se adivinhavam, uma revista própria — o seu maior sonho — a XYZ.


O Sete de Espadas está referenciado como um dos três grandes do policiário português: Repórter Mistério, o introdutor do enigma em Portugal; Artur Varatojo, o divulgador nos jornais, rádio e televisão; e Sete de Espadas que expandiu o policiário português e lhe deu expressão, o homem que mais adeptos conseguiu captar — iniciou, manteve e reconduziu muitos dos afastados para a modalidade.

O SETE marca três gerações de aplicação do poder do raciocínio e profunda amizade.

 

M. Constantino

 

 LÚCIFER INTERVEIO NA HISTÓRIA

 

Autor: Sete de Espadas

 

(Problema com que ganhou o título de Campeão Nacional em 1958)

 

O cadáver do banqueiro, crivado de golpes, estava deitado na alcatifa, como que em posição de sentido. Aos pés, em face deles, uma poltrona, e, ao lado direito, uma mesinha. Sobre ela um montículo de cinza de tabaco, um magnífico charuto meio consumido, e a respectiva ponta. No chão, a cinta do charuto onde se lia a marca «DONNIA». Nem um mínimo rasto por onde inferir-se a identidade do criminoso.

 

Conclusão: – Um crime perfeito!

Móbil: – Vingança! Actuação de um sádico. 

 

O assassino, após o crime, e saciada a vingança que inúmeras feridas testemunhavam, instalara-se ante o cadáver sangrento, trincara a ponta dum charuto e fumara-o com volúpia que a contemplação da vítima mais avivava.

(O facto de não existir cinzeiro explica-se pela interdição médica que impedia o banqueiro de fumar).

Os três suspeitos estavam na minha frente: – Bernard, Flamínio e Lerroux. Todos odiavam o banqueiro. Todos se odiavam entre si. Todos fumavam charuto.

– Ouça, Flamínio – comecei, seguindo um raciocínio súbito e, aparentemente, inoportuno. – Você que era amigo de Bernard, porque se zangou com ele?

Flamínio sorriu: – Já lá vão 8 dias e como sabe sou um desmemoriado.

– Essa tem graça! – Exclamei. – Ó Bernard, então você não se ri?...

– Desculpe – respondeu com dicção difícil. – Ando há quatro dias em tratamento no Dr. Lacroix que me extraiu os incisivos. Enquanto não colocar a nova dentadura mal posso falar e muito menos rir-me…

Olhei então para Lerroux que, sempre nervoso, esbugalhava para mim os seus olhos pardos. Era o que mais rancor votava ao banqueiro. Perdia a serenidade ao vê-lo e afirmava que o havia de matar…

… Mas seguindo o meu fio de raciocínio, voltei-me de novo para o Flamínio.

– Homem, você de há uns tempos para cá anda endiabrado. Há 8 dias incompatibilizou-se com o Bernard; dois dias depois saía do gabinete do banqueiro rugindo ameaças; e, ontem à noite agrediu à biqueirada o guarda-nocturno da sua área…

Flamínio respondeu enfadado: – E daqui a pouco agrido-o a você!

Olhei-o com curiosidade: – distinto, feições finas e cruéis, merecia bem o apodo de «Mefistófoles Italiano”… Tinha habilidades fantásticas de faquir… Ao lado dele, Bernard, o capitalista excêntrico, aparentava calma no rosto amarelo de intoxicado. Fumava como uma chaminé. Tinha mesmo encomendado, à melhor fábrica da especialidade, uns excelentes charutos para seu uso exclusivo que recatara até dos próprios amigos. Dizia-se que mandara gravar nas cintas o nome duma grácil rapariga que Lerroux havia trazido da Livónia, e que o capitalista tivera artes de seduzir com assíduas visitas ao casal. Com ela vivia há dois anos – e o ódio de Lerroux ao capitalista Bernard era labareda infernal…      

Subitamente, proferi com voz enérgica: – Lerroux, esse amor insensato perdeu-o!

Lerroux exclamou com paixão: – Minha adorável Donnia! – O seu corpo teve um estremecimento e com uma grande cópia de gestos que fizeram derrubar uma jarra, exteriorizava o seu ódio ao traiçoeiro Bernard, quando me ergui num repente: – Você disse Donnia?...

– Sim – respondeu Lerroux. – Ela chamava-se Dounetcka, mas, na intimidade, tratava-se por Donnia.

Tirei do bolso a cinta do charuto e mostrei-a a Bernard: – Então o que eu supunha ser a marca deste “paivante” é o nome da sua beldade?...

– Crime e castigo! – Berrou Lerroux numa exaltação enorme.

Bernard, muito pálido, apenas pôde balbuciar: – Esta só pelo Diabo!...

– Tem razão – acrescentei. – Lúcifer interveio na história… E ainda bem, porque me fez descobrir o assassino.

 

Pergunta-se:

Quem foi o assassino?

Apresente provas.

 

(solução na próxima semana)




 

 

TORNEIO DO CENTENÁRIO DO SETE DE ESPADAS

 Durante este ano de 2021 estaremos sempre sob o signo do SETE DE ESPADAS.

Alguns confrades e detectives questionam-nos sobre a não publicação no blogue dos textos, fotos, problemas, etc. que são publicados na SÁBADO.

Pois bem, porque também somos sensíveis a alguns argumentos, nomeadamente daqueles detectives que não pretendem danificar a revista levando-a para todo o lado, dificultando o seu posterior arquivo, vamos definir as regras que regerão a publicação no blogue.

Assim, vamos publicar, a partir de hoje, todos os textos e fotos das secções anteriores da SÁBADO, deste ano.

Os textos e fotos das próximas secções serão sempre publicados no blogue, na 4.ª feira seguinte à sua publicação na revista.



segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

CENTENÁRIO DO SETE DE ESPADAS

 

SETE DE ESPADAS

O SETE DE ESPADAS completaria hoje 100 anos de idade!

Muito foi já dito e escrito sobre a sua vida e obra e muito mais haverá ainda para dizer e escrever.



Na SÁBADO inicia-se na próxima 5.ª feira o 
TORNEIO DO CENTENÁRIO 
DO SETE DE ESPADAS, 
que vai decorrer ao longo de todo o ano de 2021.




Onde quer que o SETE esteja, sentirá certamente o carinho de toda uma Família Policiária que não esquece o seu exemplo de divulgador e cultor deste passatempo que nos une.


Um dos últimos emails recebido do SETE DE ESPADAS


PARABÉNS, SETE DE ESPADAS!


sexta-feira, 1 de janeiro de 2021